03/05/2011

Gonzaguinha, um gênio invocado

Com mais de 55 músicas censuradas na ditadura militar nos anos 1970, Gonzaguinha era reconhecido pelo talento agressivo e invocado. Tinha um gênio afiado, e nas palavras do sanfoneiro Dominguinhos, “não dava mole, não!”.

Dominguinhos lembra o amigo Gonzaguinha
 

A maior parte do público associava seu nome à canções de protesto. Versos como “Te vira, bota um sorriso nos lábios” e “de tanto andar na corda bamba eu sou equilibrista, e a plateia aplaudindo e pedindo bis”, presentes na canção "Pois é Seu Zé", colaboravam para a imagem rebelde de Luiz Gonzaga Junior.

Foi no final dos anos 1960 que o compositor se juntou a Ivan Lins, Aldir Blanc e outros grandes futuros nomes da música brasileira para formar o “MAU”, o Movimento Artístico Universitário. Eventualmente, se juntavam ao grupo profissionais como Milton Nascimento, Jackson do Pandeiro, Emílio Santiago e Ney Matogrosso. O movimento nasceu na rua Jaceguai, número 27, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. O MAU tinha a intenção de criar música de uma forma livre, espontânea e descontraída. Mas era inevitável: em plena ditadura militar, não se podia esperar outra coisa além da crítica sócio-política de um artista como Gonzaguinha.

O estereótipo ingênuo e despretensioso que o grande público conhece nos versos das canções mais populares do compositor não dialoga com um reflexo carrancudo que o próprio Gonzaguinha fazia questão de cultivar, apelidado na época de “cantor rancor”. Para o jornalista Okky de Souza, no site Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira, Gonzaga Junior “era dono de um mau humor folclórico na MPB”.

Já, para o filho, Daniel Gonzaga, que também segue a carreira do pai e do avô - o Rei do Baião Luiz Gonzaga - como músico e compositor, Gonzaguinha era uma pessoa verdadeira, doce quando tinha de ser doce e severo quando tinha de ser severo.

Conforme a situação do país foi mudando de quadro, em consequência do "enfraquecimento" da ditadura, Gonzaguinha aos poucos deixou de lado temas políticos e sociais e passou a produzir mais canções românticas e populares.

Para o amigo íntimo Vicente Barreto, essa mudança de olhar na obra de Gonzaguinha coincidia com as modificações que o país sofria na época e foram importantes na transformação do artista. “Ele fazia uma música mais introspectiva, uma coisa em que o texto era o que mais aparecia. E, claro, ele foi se modificando, assim como o próprio país. Ele consegue ser mais amável com as pessoas; ele era um pouco arredio”, confessa o autor de "Tropicana" (com Alceu Valença).


Vicente Barreto fala do parceiro Gonzaguinha


O músico e amigo da família Dominguinhos acredita que os anos de chumbo abalaram bastante Gonzaguinha. Para ajudar o filho a sair do marasmo e da angústia alimentados pela política, o pai começou a gravar composições de Gonzaguinha. Na opinião de Dominguinhos, esse acontecimento foi muito importante para que a relação entre pai e filho fosse mais próxima.

Para alguns críticos de música, o disco Gonzaguinha da vida, de 1979, foi o grande divisor de águas na carreira do artista. Canções com versos como “Diga lá, meu coração, da alegria de rever essa menina” ou “Sentindo o meu amor se derramando, não dá mais pra segurar, explode coração” passam a ser os hits do compositor.

Gonzaguinha era um autor de poucas parcerias. Poucos músicos brasileiros tiveram a oportunidade de dividir uma criação com ele. Entre esses estão Ivan Lins, o pai, e Vicente Barreto (“Abençoado e santo”). Para o sanfoneiro, “Gonzaguinha compunha sozinho pois tinha muita competência para escrever letra e música, assim como Chico Buarque e outros tantos da MPB”.

Mas foi num período mais calmo na vida de Gonzaguinha que suas composições ganharam mais atenção do público. Canções como “O que é o que é”, “E vamos com a luta”, “Espere por mim morena”, “Redescobrir” e “Grito de alerta” fizeram muito sucesso e foram eternizadas em vozes graúdas, como as de Elis Regina, Maria Bethânia e Simone.

De mal-humorado folclórico a exitoso compositor romântico, o músico morto há exatos 20 anos construiu um patrimônio importante para a música brasileira. “Gonzaguinha deixou uma obra maravilhosa e será difícil encontrar um músico brasileiro com tanta veia invocada”, afirma Dominguinhos. Já para Daniel Gonzaga, o maior legado do pai é a integridade e a teimosia de batalhar pelo que se quer.

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